Isabelle Reis

Escritora

Jornalista

Eu amo Literatura Nacional

sábado, 28 de abril de 2018

CONTO: Ônibus 669

José descia a ladeira de casa enquanto pensava qual ônibus pegar para a praia.
José era pobre, morador do morro do Chapadão, e não saia muito de casa. Diferente dos amigos, é claro.
José era negro, cabelo raspado e barriga avantajada.
José tinha 12 anos.
José queria sair da escola.
Os amigos bateram a mão nas costas dele e o guiaram até o ponto de ônibus que os levaria para a jornada dupla de transportes até a Barra da Tijuca. Estavam animados com a ideia de sair por aí sozinhos e curtirem um dia quente e abafado no Rio de Janeiro
O que muitos não sabiam, era que José tinha uma capacidade enorme de questionamento da sociedade. Frequentemente ele se pegava imaginando, filosofando e discutindo consigo mesmo sobre as pessoas que estavam a sua volta.
Foi então que em um ônibus cheio, ele notou que vivia ao redor de pessoas mal-educadas.
Seus amigos, na verdade.
Dedé e Anderson gritavam palavrões para as pessoas que passavam na rua.
Aninha “do cabelo duro” vivia chamando os rapazes de gostosos e nunca dava lugar para os idosos sentarem no banco preferencial.
Vitinho era o pior deles, porque era assaltante de carteira assinada. Nascera para aquilo.
Maroca era uma menina doce, mas já estava grávida aos quinze. José, ao contrário dos amigos, não a julgava como puta ou piranha. Pensava que era uma escolha dela, e tinha de arcar com as consequências.
Enquanto ele apreciava a paisagem da Zona Norte, um ambulante entrou no ônibus vendendo balas e biscoitos ao preço máximo de dois reais. Com os poucos trocados que tinha, José comprou um saco de amendoim e um biscoito Torcida.
— Me dá aí! — Disse Vitinho esticando a mão em uma concha, em um pedido mudo de um pouco do biscoito de José.
Apesar da profissão controvérsia, Vitinho ainda era seu melhor amigo, pelo único fato de serem vizinhos desde que se conheciam por gente.
— E aí Zé! Ele quer que você dê para ele! — Comentou Dedé, com sua voz alta e estridente, para todo ônibus ouvir.
— HUMMMM, ele quer que você dê José, vai dar para ele, seu bichinha? — Todos riram e começaram a gemer como se fosse algo mais pervertido da face da Terra.
E então o ritual começou.
Todos bateram com força na cabeça de Dedé, no intuito de fazê-lo aprender como se expressar perante os amigos. Era duro de se ver, mas nas ruas era assim. Um menino não era educado pelos pais, mas pelos amigos. Aprendem como falar, como tratar uma mulher, como se comportar e o que almejar.
Aquela era uma lição básica: nunca use frases ambíguas na frente dos amigos, isso pode ser levado para o lado errado.
José não gostava disso, virou para o outro lado quando viu a “brincadeira” começar.
Depois do segundo ônibus, teve certeza que seu dia de praia seria um saco.
Dedé estava comentando com Vitinho quantas mulheres havia transado nos últimos dias. 99% era mentira, mas aquilo acabava com sua paciência. Aquela seria uma necessidade de autoafirmação? Um desejo de se mostrar crescido, mesmo que tenha apenas catorze anos? Estava cansado de tudo aquilo.
Chegaram na praia, colocaram o isopor na areia e se jogaram nos minúsculos grãos que rapidamente os cobriram como um bife à milanesa. Foi um dia feliz, apesar de tudo.
Pela primeira vez Maroca estava indo no mar, e todos tiveram o maior cuidado de ajudá-la a entrar na imensidão azul, estava muito contente. Comeram um frango assado que compraram na padaria, beberam Tobi com 51 durante toda a tarde e colocaram nas alturas os funks mais proibidos de toda a cidade. Haviam levado um pequeno rádio para tal.
Quando passava das cinco, decidiram dar um último mergulho para irem embora, afinal, a viagem era longa. Maroca decidiu ficar na areia tomando conta das coisas. Vitinho e Aninha tinham sumido na água.
José correu o máximo que pôde, queria aproveitar o enorme banco de areia que havia se formado, isso era raro nas praias da Barra. Avistou Aninha e Vitinho mais a frente, mas não sentiu o rompante que foi um Dedé irado passando por ele, ficou preocupado.
A praia já estava ficando vazia, porque o vento frio do inverno, apesar do sol mais cedo, estava afastando os banhistas, mas o grito que Dedé deu assustou os que ainda estavam ali.
— O que pensa que está fazendo, porra? — Esbravejou ao chegar perto dos dois.
— E o que você tem a ver com isso? — Questionou Vitinho, com a sobrancelha arqueada.
— Ela tava ficando comigo, seu merda, tinha que dar em cima? — Aninha estava completamente assustada.
— Para de bancar o dono das mulheres Dedé, sabemos que você não é de nada! — Vitinho cuspiu o resto de água que entrou em sua boca.
Secretamente, desde menores, os dois tinham uma rivalidade para mostrar quem era o mais vivido, o mais espero e inteligente.
— Solta ela agora! — Puxou o braço de Aninha, a menina cambaleou e sentiu água entrar no nariz.
José via tudo de perto, não queria se meter em mais confusão. Pediu, de forma muda, que Aninha saísse da água. Assim que Dedé soltou seu braço, ela foi.
José ficou. Era como se estivesse vendo um Globo Repórter sobre os bichos do Pantanal. Duas onças pintadas brigando pela presa, era interessante.
— Você é um merda Dedé, para de bancar o maioral, se tem alguma coisa para dizer, é melhor vir na mão! — Os dois se encararam por alguns intermináveis segundos.
Assim Dedé o fez.
Os dois começaram a se engalfinhar dentro da água, com as ondas fortes da Barra batendo entre um soco e outro. José achou que era hora de intervir. Começou a tentar segurar Dedé, mas Vitinho deu um soco em seu olho, que o fez cambalear por alguns segundos. Perder o equilíbrio no mar, era um atestado de afogamento. José nunca bebeu tanta água salgada como naquele momento, mas conseguiu vislumbrar o outro soco que Vitinho deu em Dedé.
José conseguiu colocar, momentaneamente, a mão no chão e fazer impulso para cima. Sentiu seus olhos arderem quando estava na superfície e quis, mais uma vez, separar a briga. Dedé estava afogando. Os olhos de Vitinho estavam juntos e seus lábios pesadamente pressionados.
Quando sentiu o sangue escorrer pela água, José gritou.
— Parem com isso agora! — Tentou mais uma vez separar.
Desta vez Vitinho não errou.
Deu um soco bem dado e José desmaiou. Dedé vislumbrou o medo e tentou acudir o amigo.
— Ninguém me desafia, porra! — Disse Vitinho puxando os cabelos crespos de Dedé e, com todas as forças, colocando-o embaixo d’água, vendo-o espernear como uma rã.
José voltou com o olhar embaçado, estava com os olhos ardendo e via os amigos de longe. Debateu-se e começou a nadar novamente, tentava, contra a correnteza, chegar perto da dupla de amigos. Via o estardalhaço que Dedé fazia na água, e viu também quando ele o parou de fazer. Sumiu.
— Dedé! — Conseguiu gritar José.
Ele havia sumido no mar e Vitinho estava saindo da água. José ficou procurando o amigo, agora com dor de cabeça e os olhos ainda mais ardidos, mas nada conseguiu encontrar. Estavam em uma parte funda e o azul era escuro demais. Chorou como a verdadeira criança que era.
Correu para a areia e começou a gritar para que todos ouvissem que seu amigo havia se afogado. Algumas pessoas começaram a olhar, mas não tinha sinal de salva-vidas e nem de alguém com as mãos para cima, tentando voltar para a superfície.
Vitinho colocou as roupas e mostrou um canivete que tinha no bolso.
— Vamos embora, deixa esse merda aí, ou eu furo todo mundo! — Comentou com a maior naturalidade e pegou o isopor da mão de Maroca.
Todos, em silêncio, voltaram para a casa.
Um ônibus nunca foi tão silencioso quanto naquele dia.
Queria o barulho de volta.

Esta é uma autora que sonha em ser romancista policial, mas já escreveu aventuras, crônicas, livro adolescente e, ah, meu Deus! Deixa para lá, só ser escritora já está bom!

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